AGITA

TEXTO: EMILLY TIFANNY
FOTO: Maria Fernanda Paixão

Cerca de um quilômetro quadrado
Ecoou incontáveis quilômetros
Agitado por tiros
Direcionados para um alvo encurralado
Que agitava, eles pensaram

Mulher, negra, lésbica e favelada
Agita a confortável hegemonia
Na insônia de março
O sangue ativista foi derramado
A voz altiva foi silenciada

Se enganaram
Tem mais sangue ativista correndo nas veias
Sua voz semeia
E o silêncio nunca mais será o mesmo
A queda de uma impulsionou a luta de todas

SILENCIADAS

ENSAIO E TEXTO: LUÍSA CARVALHO

É frequente a queixa de mulheres que frequentam a UFBA a respeito da vulnerabilidade a que seus corpos estão sujeitos no ambiente universitário: de textos em redes sociais a documentos formais levados à Ouvidoria. Entretanto, grande parte dessas reclamações, denúncias e gritos é ignorada. Suas queixas são menosprezadas. Suas vozes são silenciadas. Este ensaio mostra mulheres em locais considerados perigosos para muitas delas. As imagens foram feitas nos campi Ondina e Federação. Em alguns lugares fotografados há histórico de ocorrência de abuso, assédio e/ou violência.

SEGUREM AS PAREDES!

FOTO: marina silva (correio)
texto: ana carolina faria

A Lei Orçamentária estabelecia cerca de R$ 23,7 bilhões para despesas na Educação como um todo. Nos últimos anos, porém, estamos acostumados com os cortes e não seria de se espantar se ele viesse. Ele veio. O governo bloqueou quase 25% do dinheiro que estava reservado para custear esses gastos. Ele veio com tudo. Tudo, menos sentido. Cortar recursos de universidades que estão apresentando queda no desempenho. Está ruim? Então, vamos deixar pior. Qual a lógica? Mesmo que a justificativa fosse verdadeira, a atitude continuaria errada. Mas um passo de cada vez.

O próximo capítulo veio com as reações provando que as três universidades escolhidas são de alta qualidade e avaliações comprovam isso. Nos perguntamos, portanto, por que essas três? Ah, a tal da balbúrdia! Mas que balbúrdia? O ministro Abraham Weintraub responde: “Sem-terra dentro do campus, gente pelada dentro do campus”. Por que o MEC se nega a dar uma explicação, no mínimo, razoável? O campus universitário é frequentado por muitas e muitas pessoas diariamente, assim como outros espaços coletivos em que, eventualmente, algo desviante é percebido. Mas aí eu lanço a pergunta de um tal de Jorge Quintas que apareceu no meu instagram: “Vamos fechar o país por que alguém ficou pelado?”.

Pego no pulo, o governo decide cortar de todo mundo. Já que estão reclamando dos critérios, eles não serão mais utilizados. Pronto. “A gente não vai cortar recurso por cortar. A ideia é investir na educação básica. Ouso dizer até que um número considerável não sabe sequer a tabuada. Sete vezes oito? Não vai saber responder. Então pretendemos investir na base. Não adianta ter um excelente telhado na casa se as paredes estão podres. É o que acontece atualmente”, disse o presidente. Avisou no plano de governo que iria focar na educação básica, está cumprindo o que prometeu. De repente, o corte de três era suficiente, agora precisa cortar de todas. Já vimos aí a falha matemática. Segurem as paredes!

Mas não, espera. Você piscou e mais uma bomba Bolsonaro lançou. “Ao menos R$ 2,4 bilhões que estavam previstos para investimentos em programas da educação infantil ao ensino médio foram bloqueados”, diz o Estadão de ontem. Lembrando que o corte das universidades foi de 2,2 bilhões. Ou seja, temos agora um corte ainda maior para o ensino básico. Fazemos novamente a pergunta. Qual a lógica? Para os que dizem “Ah, parem de torcer contra!”, eu digo “Ah, me desculpe. Vamos torcer a favor do corte na educação, então”. Para quem não está entendendo nada, das duas uma: ou esse governo não faz ideia do que está fazendo, ou é mais esperto do que imaginamos. Qual será o próximo capítulo da saga MEC (Ministério das Escolhas Cadavéricas)?

(IN)VISÍVEIS?

ENSAIO E TEXTO: aNDREZA santos

É sabido que, mesmo na capital mais negra do país, há uma latente objetificação dos corpos negros que aqui residem, por conta das marcas sociais de um processo de escravização desse povo, além da política silenciadora que atinge também no aspecto de classe e de outras diferenças. Essa base é reproduzida em todos os âmbitos sociais, também na universidade que tem estrutura elitista, logo excludente. Portanto, simultaneamente reproduzido na faculdade de comunicação e seus entornos, essas fotografias são parte de um ensaio que tinha como objetivo valorizar os funcionários terceirizados, em maioria negros(as), e/ou pessoas relegadas a um lugar desrespeitoso de não existência social.

ESTIMAR-SE

FOTO E TEXTO: ANA CAROLINA FARIA

 

Estima significa sentimento de carinho ou de apreço em relação a alguém/algo ou admiração e respeito que se sente por alguém, advindos do reconhecimento do seu valor moral, profissional, etc.

Apesar de tudo, estime-se.

Apesar das cantadas desrespeitosas, apesar do medo de andar na rua, apesar das vezes que deixou de sair de casa, apesar das vezes que riram de você, apesar das injustiças contra você já cometidas, apesar dos julgamentos, apesar das vezes que te diminuíram, que duvidaram de você, que te humilharam, que te agrediram, que te abusaram.

Estime-se.

Não é MiMiMi, é discriMinação, é feMinicídio, é Misoginia. Não é chatice, é transição, é necessário.

Seguiremos unidas, estimando a nós mesmas e umas às outras.

E com a nossa estima mudaremos o mundo.

 

É CARNAVAL

TEXTO: Emilly Tifanny

Coordenadas geográficas
Unem-se periodicamente
Para formar um ponto
Uma única direção

Possessor do brilho
Que se destaca entre os outros
E transborda

Cores, alegria
Diversidade de povos,
Ideias, valores, escolhas e possibilidades

Tudo se mistura
As noites viram dias, os dias nunca tem fim
A sexta se expande
Transforma-se em uma semana inteira
As luzes jamais se pagam

A regra é brilhar
Deixar de lado o opaco
O glitter é o novo pretinho básico

Multiplicam-se os beijos e abraços
Os corpos seguem o ritmo da musica
A cidade é uma voz
Um coro automaticamente sincronizado
Pela energia do Carnaval

LAS ROSAS ROJAS

 

TEXTO: SARAH CARDOSO

As mãos em prece
Os joelhos pesados no chão de terra
Os olhos fixados na imagem

Peço com tanta força que
A urgência desvirtua a prece
Solo soy una errante bajo tus pies

Me falta conta nesse terço
Me perco nas contas
Nas Ave Marias
E nas contas que batem em minha porta

Me da un plazo,
Me deja respirar,
Un o dos meses
Mis deudas voy a pagar

Peço a tudo que me toca
Será que alguém me ouve?
Ruego a las fuerzas interiores
A las energías ocultas
A todos los santos que conozco de nombre
A las miradas sesgadas
A las sonrisas gentiles

Aperto tanto as mãos para que a fé não escorra entre meus dedos
Tus lágrimas piadosas de santa
Son la última instancia del juicio
De mi alma devota

Deixo as rosas aqui
Para que se lembre de mim ao sentir o perfume
Recuerda que mi oración tiene olor de rosa e atiéndeme
Madre, ora por mí

MENOS DO MESMO, POR FAVOR

Ilustração: ravel lima
Texto: emilly tiffany

 

Rede social é uma estrutura formada por pessoas ou organizações, conectadas por um ou vários tipos de relações, que compartilham valores e objetivos comuns. Quando essa maravilha foi integrada ao mundo digital, as redes evoluíram de uma azeitona, para uma melancia.

Além de manter e criar novas relações com mais facilidade, tornou-se possível se comunicar por meio de vídeos, fotos e textões. Mais tarde os memes, os emoticons (esses são uma benção e uma maldição, afinal, quem nunca conversou com alguém e percebeu que ela não entendia, aquele rostinho da mesma maneira que você?), os gifs e as figurinhas, compuseram essa linguagem. As palavras que eram somente escritas e abreviadas ao máximo possível, para compor harmonicamente esse universo de rapidez e instantaneidade, transformaram-se em áudios. A imagem e o áudio se fundiram e deram origem ao queridinho de muita gente, a chamada de vídeo.

O Orkut, com seus scraps, depoimentos, álbuns de fotos e a possibilidade de ver as visitas no perfil, onde as pessoas faziam questão de acumular o maior número de recadinhos possível, foi a primeira a popularizar. O MSN, era o bate papo do momento, e a sua função de chamar a atenção do amiguinho quando ele não respondia, era incrível. O tempo passou e junto com ele, essas redes ficaram para trás, dando lugar ao Facebook. Agora o compartilhamento de memes e os textões entram em cena, o objetivo é colocar a sua opinião em pauta, aceitar ou recusar solicitações de amizade, curtir e comentar publicações e bater papo com os amigos. Tudo em um só lugar, em um feed. O Snapchat, chegou como a mais diferentona e logo ganhou uma legião de fãs. Conversar e contar histórias que só durariam 24 horas na rede, possibilitava uma forma mais divertida e espontânea de compartilhar os acontecimentos do dia-a-dia, tudo isso podendo controlar por quantos segundos a publicação poderia ser vista pelos seguidores e quem fazia print delas. O Whatsapp veio com tudo com suas mensagens de texto, vídeo e imagens instantâneas, os emoticons, gifs e figurinhas, a possibilidade de personalização do nome dos contatos, áudios e chamadas de voz e vídeo; tornando-se a plataforma de bate-papo mais utilizado do Brasil. O Instagram é o nosso álbum de fotos virtual: escolher a legenda perfeita para aquela foto incrível e conquistar vários coraçõezinhos com ela é a prova de que uma imagem pode falar mais que mil palavras.

Todas as redes sociais com o mesmo objetivo, de aproximar pessoas. E cada uma especial por suas características próprias, conquistaram a sociedade e caíram no gosto das pessoas de tal maneira, que o cotidiano foi se desdobrando em função delas. Inclusive o capitalismo. E aos poucos tudo foi se tornando igual ao que dava lucro. As histórias que existiam apenas no Snapchat tomaram conta de todas as redes, inclusive plataformas de streaming, como o Youtube. Os memes e os vídeos com mais de 1 minuto, estão em todo lugar. Lives acontecem em todas as redes e ao mesmo tempo. E as publicações, que eram para ser variadas e empolgantes, também tornaram-se iguais em redes distintas. Mas os nomes e as palhetas de cores ainda são diferentes.

PRETO E PRATA

Ilustração: Giulia Estrela
Texto: Ravel Lima

 

“A prata é um metal com poder de reflexão muito elevado. Do latim ‘argentum’, significa brilhante. Nossa pele é de prata, ela reflete luz. Um brilho tão intenso que eu me pergunto ‘por que o ouro é tão querido e a prata subvalorizada?’. Alguns hão de responder que é pela prata ser encontrada com mais facilidade. Reflita: O Brasil tem uma população de negros maior que a de brancos. Temos menor valor por ser maioria?” Assim o rapper Baco Exu do Blues ilustra a metáfora sonora de seu novo álbum, lançado em pleno novembro negro, em ano especificamente difícil para a comunidade negra no Brasil.

De tantas dores e marcas deixadas na pele negra por um ano tão a flor da pele, começamos a perder tudo. Inclusive o medo. “A prata é um metal puro. Eu realmente não entendo essa necessidade da procura do ouro.” reflete o som de Baco. Literalmente, reflete a perda do medo e a ascensão de uma consciência identitária que deu um salto orgulhoso nos últimos anos no Brasil. Os peles de prata estão se descobrindo, e sem muita espera, o ouro se sente ameaçado.

Em meio ao crescente orgulho, no último dia 20, foi comemorado o dia da consciência negra. A data é comemorado desde 2003 e foi oficializada em 2011. Mas até hoje não é completamente compreendida e precisa ser defendido de posicionamentos esdrúxulos sobre a sua importância. E quanto mais é atacado ou mal compreendido, mais ele se torna importante. O empoderamento da juventude, a ocupação de espaços, a exploração do amor próprio, a derrocada de barreiras… Todo um processo lento, mas poderoso, celebrado em um dia.

Esse último dia 20, no entanto, foi uma comemoração difícil diante de tantas perdas. De forma lastimosa foi dado o 1 minuto de silêncio que durará pelo resto de nossas vidas. Nos eventos e nos posicionamentos, Marielle e Mestre Moa foram lembrados. Para além de lembrados, reconhecidos como a Hidra que são: se tiveram sua cabeça abatida, duas novas nascerão em seu lugar. Eles não terão como matar milhares de Marielles e Moas. E o pesar vai aos poucos dando espaço a coragem. E as lágrimas nos olhos vão virando “sangue nos olhos”, e o dia da consciência negra se mostra em seu significado mais profundo.

A data, no entanto, contempla algo maior do que a auto-percepção da comunidade negra. Toca no lado de criação ou reformulação de políticas para a comunidade negra, pautada na sua história. É importante a prata reconhecer o seu valor, mas também é necessário que o sistema pare de tratar o ouro como superior. O dia da consciência negra não terá alcançado o seu maior objetivo enquanto a maioria dos negros ainda não tenham acesso ao que ele oferece. Até lá, lutaremos como Marielle e Moa lutaram. Devemos isso a eles.