AGITA

TEXTO: EMILLY TIFANNY
FOTO: Maria Fernanda Paixão

Cerca de um quilômetro quadrado
Ecoou incontáveis quilômetros
Agitado por tiros
Direcionados para um alvo encurralado
Que agitava, eles pensaram

Mulher, negra, lésbica e favelada
Agita a confortável hegemonia
Na insônia de março
O sangue ativista foi derramado
A voz altiva foi silenciada

Se enganaram
Tem mais sangue ativista correndo nas veias
Sua voz semeia
E o silêncio nunca mais será o mesmo
A queda de uma impulsionou a luta de todas

SEGUREM AS PAREDES!

FOTO: marina silva (correio)
texto: ana carolina faria

A Lei Orçamentária estabelecia cerca de R$ 23,7 bilhões para despesas na Educação como um todo. Nos últimos anos, porém, estamos acostumados com os cortes e não seria de se espantar se ele viesse. Ele veio. O governo bloqueou quase 25% do dinheiro que estava reservado para custear esses gastos. Ele veio com tudo. Tudo, menos sentido. Cortar recursos de universidades que estão apresentando queda no desempenho. Está ruim? Então, vamos deixar pior. Qual a lógica? Mesmo que a justificativa fosse verdadeira, a atitude continuaria errada. Mas um passo de cada vez.

O próximo capítulo veio com as reações provando que as três universidades escolhidas são de alta qualidade e avaliações comprovam isso. Nos perguntamos, portanto, por que essas três? Ah, a tal da balbúrdia! Mas que balbúrdia? O ministro Abraham Weintraub responde: “Sem-terra dentro do campus, gente pelada dentro do campus”. Por que o MEC se nega a dar uma explicação, no mínimo, razoável? O campus universitário é frequentado por muitas e muitas pessoas diariamente, assim como outros espaços coletivos em que, eventualmente, algo desviante é percebido. Mas aí eu lanço a pergunta de um tal de Jorge Quintas que apareceu no meu instagram: “Vamos fechar o país por que alguém ficou pelado?”.

Pego no pulo, o governo decide cortar de todo mundo. Já que estão reclamando dos critérios, eles não serão mais utilizados. Pronto. “A gente não vai cortar recurso por cortar. A ideia é investir na educação básica. Ouso dizer até que um número considerável não sabe sequer a tabuada. Sete vezes oito? Não vai saber responder. Então pretendemos investir na base. Não adianta ter um excelente telhado na casa se as paredes estão podres. É o que acontece atualmente”, disse o presidente. Avisou no plano de governo que iria focar na educação básica, está cumprindo o que prometeu. De repente, o corte de três era suficiente, agora precisa cortar de todas. Já vimos aí a falha matemática. Segurem as paredes!

Mas não, espera. Você piscou e mais uma bomba Bolsonaro lançou. “Ao menos R$ 2,4 bilhões que estavam previstos para investimentos em programas da educação infantil ao ensino médio foram bloqueados”, diz o Estadão de ontem. Lembrando que o corte das universidades foi de 2,2 bilhões. Ou seja, temos agora um corte ainda maior para o ensino básico. Fazemos novamente a pergunta. Qual a lógica? Para os que dizem “Ah, parem de torcer contra!”, eu digo “Ah, me desculpe. Vamos torcer a favor do corte na educação, então”. Para quem não está entendendo nada, das duas uma: ou esse governo não faz ideia do que está fazendo, ou é mais esperto do que imaginamos. Qual será o próximo capítulo da saga MEC (Ministério das Escolhas Cadavéricas)?

ESTIMAR-SE

FOTO E TEXTO: ANA CAROLINA FARIA

 

Estima significa sentimento de carinho ou de apreço em relação a alguém/algo ou admiração e respeito que se sente por alguém, advindos do reconhecimento do seu valor moral, profissional, etc.

Apesar de tudo, estime-se.

Apesar das cantadas desrespeitosas, apesar do medo de andar na rua, apesar das vezes que deixou de sair de casa, apesar das vezes que riram de você, apesar das injustiças contra você já cometidas, apesar dos julgamentos, apesar das vezes que te diminuíram, que duvidaram de você, que te humilharam, que te agrediram, que te abusaram.

Estime-se.

Não é MiMiMi, é discriMinação, é feMinicídio, é Misoginia. Não é chatice, é transição, é necessário.

Seguiremos unidas, estimando a nós mesmas e umas às outras.

E com a nossa estima mudaremos o mundo.

 

Perdido na recepção

por Renato Meira

Depois de insistentes indicações de amigos e familiares, resolvi finalmente criar uma conta no site de streaming Netflix. Logo na página inicial, me deparei com a série Narcos (2015), trabalho mais recente do diretor brasileiro José Padilha. Narcos é uma série policial que acompanha a história real do agente anti-drogas americano Steve Murphy e da força tarefa na qual trabalhou na década de 1970 para combater o infame cartel de Medellin, liderado pelo traficante colombiano Pablo Escobar. Por mais interessante que seja a trama da série, o que realmente me chamou a atenção foi a semelhança em estilo entre Narcos e os restante da obra de José Padilha.

Mesmo que as narrativas policiais estejam presentes nos seus trabalhos mais proeminentes, a filmografia de Padilha não me permitiria dizer que ele é um cineasta limitado a esse cenário. Mas é óbvio que na sua obra o diretor busca continuamente incluir as mesmas questões políticas a respeito da desigualdade social, combate ao crime, e sobre o uso de violência pelas instituições do governo – a própria série Narcos dedica seus primeiros minutos a um panorama das ditaduras latino-americanas da década de 1970, mesmo que a ligação desse cenário político com o resto da trama seja meramente tangencial.

Sempre considerei os filmes da série Tropa de Elite (2007/2010) uma crítica à desigualdade social e, principalmente, aos efeitos do uso sistemático de violência pelo Estado – efeitos sobre aqueles que a aplicam, e sobre aqueles nos quais ela é aplicada. Porém, me surpreendi ao saber que na estréia de Tropa de Elite (2007), José Padilha recebeu vaias de  “fascista” – ato que se repetiu na apresentação do filme durante festival de Berlim (no qual o filme foi premiado com o Urso de Ouro em 2008).

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O filme foi entendido por parte da crítica como uma glorificação da violência policial que ele expunha. A tal ponto que em Tropa de Elite 2 (2010) Padilha parece ter achado necessário deixar claro no subtítulo do filme que “o inimigo agora é outro”. Quase como se dissesse: já que vocês não entenderam antes, nesse filme os antagonistas vão ser políticos corruptos e milicianos, para facilitar.

É, entretanto, completamente compreensível que ao assistir Narcos um espectador, vendo técnicas de tortura sendo infligidas por agentes estado como ferramentas eficientes de combate ao crime,  saia com a sensação de que as mentes criativas envolvidas no projeto aprovam tais práticas. O próprio filho do traficante Pablo Escobar disse, em entrevista à Folha de S. Paulo, que a naturalidade com a qual as cenas de tortura são mostradas, representa a validação da violência institucional pelo Netflix.

Não é incomum que filmes sejam criticados por  aparentemente advogarem a favor do oposto daquilo que era pretendido por seus criadores. O filme Starship Troopers (1997), dirigido por Paul Verhoeven, foi acusado de ser fascista e pró-militarista – quando na verdade é uma sátira à propaganda militarista, fascista, e armamentista. O mesmo aconteceu com Sucker Punch (2011), do Zack Snyder, considerado por muitos uma fantasia nerd que apelava para a sexualização das personagens femininas, ao mesmo tempo que tentava fingir ser uma ferramenta de empoderamento feminino. Quando entrevistas com o diretor deixam claro que Sucker Punch  é uma crítica direta à todos os filmes, games, quadrinhos, e objetos da cultura pop em geral que, apoiados na suposta força e protagonismo dados às suas personagens, exploram a imagem feminina para satisfazer o público masculino.

Dissecar os motivos desse fenômeno, ou explorar as nuances da recepção do público, vai além do escopo deste texto. A intenção aqui é mostrar que, baseado nesse histórico, é de se esperar que alguns espectadores pensem que José Padilha é a favor das táticas violentas utilizadas pelo capitão Nascimento em Tropa de Elite, ou pelo agente Murphy, em Narcos. Críticas sociais tendem a ser realmente mais difíceis de se traduzir para gêneros cinematográficos que não o documentário. Por isso acredito que é no seu primeiro filme, o documentário Ônibus 174 (2002),  que Padilha melhor define o discurso que pretende defender com sua obra.

Ônibus 174 acompanha a desastrosa ação policial no caso do sequestro de um ônibus no Rio de Janeiro, em junho de 2000, que resultou na morte do sequestrador e de uma das reféns. O filme questiona sobre quem seria culpado por tanta violência. Apesar disso, no documentário, Padilha não cria antagonistas no sequestrador nem nos policiais. Ao invés disso, resolve encerrar o filme com a seguinte fala de um dos entrevistados: “À polícia cabe o trabalho sujo que a sociedade não quer ver, mas que em algum lugar obscuro do seu espírito deseja que se realize”.

THE ARRIVAL E A ARTE DE SHAUN TAN

Imagens retiradas do próprio livro (por Shaun Tan)

Por: Vanessa Vergne

Aos amantes de quadrinhos, ilustração e artes visual, a obra do famoso ilustrador e autor australiano Shaun Tan: The Arrival, mostra-se bastante interessante.

O álbum conta a história de um imigrante que sai de sua cidade natal, deixando sua família para ir a um outro lugar. A história é bem clichê, quando se pensa em histórias que abarcam essa temática de imigração, no entanto, a forma como ela é conduzida pelo autor que impressiona.

O livro demorou cinco anos para ser feito, partindo de motivações pessoais de Shaun, e lembranças de parte da história de sua família. A narrativa tem um ritmo lento, e foi toda desenhada a mão, apenas com tons de cinza e sépia, o que dá uma impressão de coisas antigas, álbuns de fotografia.

Os aspectos gráficos são de impressionar, desde a construção dos personagens até fotos que sugerem movimentos. A ausência de traços ao redor das imagens, bem presentes em quadrinhos de heróis, dá um teor realista ao desenho. A concepção de todo o universo fantástico em que a história se passa, com criaturas estranhas, munidas de estéticas que dialogam com o grotesco. São lugares que ora lembram cidades comuns, ora remetem a cenários de filmes de ficção científica e Sci-fi.

A paleta de cor usada, é um recurso bem recorrente quando se trata de contar histórias que remetem a coisas antigas, memórias, e um pouco incomum quando se observa a trajetória das obras de Shaun, que tem uma forte ligação com a pintura e o recorrente uso de cores. A escolha da paleta cromática, além de ter casado muito bem com a temática e a atmosfera criada pela história, foi utilizada como uma estratégia de cortes de custos na produção do livro, já que ele seria produzido de forma independente pelo próprio autor.

A trajetória do personagem principal é contada sem nenhum tipo de fala, ou legenda, somente por imagens, com um ritmo de leitura lento, que exige um certo empenho contemplativo, de maior observação. Essa característica da narrativa, proporciona ao leitor uma ênfase no potencial de expressão do autor, muito conhecido por tentar transformar sensações e sentimentos em figuras.

A arte é muito sensível, e nos leva mesmo a entrar no universo da imigração, e das experiências materiais e sensoriais vividas por uma pessoa que sai de um lugar, rumo a um outro completamente desconhecido, deixando sua família para trás.

É possível fazer referência, a todo tempo, a momentos decisivos na formação de nações e grandes Estados ao redor do planeta, já que o fluxo migratório é um fato permanente na história do mundo. Quando há tragédias, fome, genocídios, guerras, haverá sempre pessoas que vão e vem, a procura de um lugar, de se encontrar, de um novo ideal, novas possibilidades, ou apenas para fugir. O mais importante mesmo nesse livro é mergulhar na narrativa e deixar as sensações fluírem através das imagens que são, realmente, incríveis.

“EU NÃO TOCO COM A MINHA VAGINA!”

Riot Grrrl: feminismo, rock podreira e publicações independentes (Foto: Brad Sigal)

Por Paula Holanda

É quase consensual que os anos 70 foram o auge do punk. Afinal, trata-se da década de surgimento e explosão de ícones como Ramones e The Clash, simultaneamente à façanha dos Sex Pistols de conquistarem solos americanos (e incomodarem líderes britânicos) com um único álbum de estúdio, a análise não poderia ser diferente. Proporcionalmente à popularidade de uma subcultura que englobava mantras de rebelião, power chords agressivos e tendências de moda ditadas por Vivienne Westwood e Malcolm McLaren, as ideologias anarquistas e antifascistas cresciam de maneira abrupta. As práticas de estilo “faça-você-mesmo” (como a customização de camisas e a confecção de fanzines, por exemplo), essenciais ao desenvolvimento do mercado independente, firmavam-se cada vez mais entre seus seguidores.

Ao decorrer dos anos, “ser punk” já não mais se resumia apenas a escutar e acompanhar dezenas de bandas do gênero, muito menos a usar coturnos, moicanos coloridos e jaquetas cobertas com patches. Tratava-se de um modo de pensar e agir; tal qual uma filosofia de vida. Não se tratava apenas de odiar instituições como a família, a escola ou a igreja, mas também o capital, a hierarquia e o nazifascismo.

Em suma, o punk agrupava música boa, roupas maneiras e ideais progressistas. A princípio, parecia um movimento perfeito; mas ainda faltava um fator essencial: as mulheres. Sim, é de conhecimento geral que, na década de 70, Nancy era tema de conversação durante seu relacionamento com Sid; também é sabido que Joey compôs inúmeras canções dedicadas à Linda. No entanto, o espaço fornecido para mulheres ativas como compositoras e empresárias (e não apenas como parceiras sexuais ou musas inspiradoras), era escasso. Não havia protagonismo, muito menos igualdade. E não adianta citar Patti Smith ou Joan Jett como exemplos: uma indústria que dava destaque a três ou quatro intérpretes mulheres para cada centena de bandas formadas por homens não se tratava de uma indústria igualitária.

Illustração por Matt Groening para o episódio “Love, Springfieldian Style” (2008)

Novos protagonismos

Até o fim da década de 80, as raras vagas oferecidas para mulheres em bandas integradas por homens resumiam-se à posição de vocalista ou, no máximo, de guitarrista base, geralmente em subgêneros mais leves. A crença de que mulheres não sabiam solar ou tocar baixo e bateria (na época, considerados “instrumentos masculinos”) ainda era bastante popular. Foi na década de 90, com a ascensão do grunge, que a mudança desse contexto tornou-se mais aparente. Tornou-se visível o aumento da notabilidade de bandas com garotas ocupando um outro papel que não o de frontgirl, como Smashing Pumpkins, que contava com a baixista D’arcy Wretzky, e Sonic Youth, com Kim Gordon na guitarra e no baixo. Foi nesse período que uma grande transformação se deu em relação à presença das mulheres no meio underground, através do movimento Riot Grrrl (ou Riot Girl).

Como organização inclusiva, o Riot Grrrl (do inglês, “riot” = revolta; “girls” = garotas; e “grrr” = onomatopéia indicativa de ira) não teve líderes, mas costuma ter seu pioneirismo creditado à Allison Wolfe (Bratmobile), que nomeou o movimento, e Kathleen Hanna (Bikini Kill), que era considerada a porta-voz do mesmo. Teve seu início em 1991, quando grupos de mulheres de Washington, D.C. e Olympia, inspirados pelos recorrentes protestos antirracistas, decidiram se rebelar em reivindicação aos direitos femininos. Kathleen, juntamente com a baterista Tobi Vail, lançou “Bikini Kill”, um fanzine sobre política, punk rock local e pautas feministas.

Para impulsionar a divulgação da revista, a dupla formou uma banda de mesmo nome e chamou Kathi Wilcox para integrá-la como baixista. Em seus shows, as garotas ordenavam que os homens se direcionassem às fileiras do fundo e que as mulheres se aproximassem do palco para receberem fanzines e folhas com letras de música. Kathleen costumava se apresentar com o corpo riscado com palavras que incitavam violência contra a mulher, como “slut” (“vagabunda”) e “rape” (“estupro”). Pouco a pouco, as bandas de peso formadas por mulheres, além das composições e publicações independentes abordando e explicitando tabus como estupro, incesto e distúrbios alimentares multiplicaram-se, imersas em uma cultura inspirada pelas garotas do Bikini Kill.

Texto e colagem por Kathleen Hanna, originalmente publicado como manifesto para o segundo volume do zine “Bikini Kill” (1991)

O segundo volume do fanzine de Kathleen e Tobi continha um manifesto que abominava padrões de gênero e sexualidade, valorizava a expressão artística feminina e clamava que mulheres visavam criar, publicar e facilitar a divulgação de trabalhos destinados a outras mulheres. Em sua maioria, os textos e canções permaneceram no meio underground, visto que a grande mídia, na época, repudiava mulheres rebeldes e independentes. Protestos relativos a lesbianismo, racismo e gordofobia também eram comuns na corrente. No Brasil, tivemos representantes como Dominatrix, Pulso e Bulimia. O movimento foi de suma importância para a participação feminina na história da música, inspirou inúmeras artistas posteriormente e destilou a cultura do “faça-você-mesmo” no âmbito feminino. Afinal, era tudo independente: as bandas, as publicações e, principalmente, as mulheres.

Fotografia de Bikini Kill em Washington, D.C., por Brad Sigal (1991)