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Paródia no Casseta e Planeta Urgente!
Lívia Nery

Introdução sobre o cômico

Como irei tratar de humor, considero importantes alguns pressupostos para um breve esclarecimento sobre o tema, retirado do ensaio de Bergson "O riso: Ensaio sobre a significação do cômico". Antes de tudo, o humor se dá na esfera do humano, na medida em que é propriamente o homem que tem a racionalidade necessária para conseguir ri das coisas (não tendo elas que se relacionar necessariamente também com o humano, ao contrário do que Bergson afirma). "Fora do que é propriamente humano, não há nada cômico" (BERGSON)
O cômico se dirige à inteligência pura, sendo que para acontecer o riso, não deve haver emotividade. Do contrário, nos é provocada sensação de sofrimento em alguma medida, por estar rindo de algo que nos comove. Justamente por se dá na esfera do racional, é um fenômeno humano. "O cômico, para produzir todo o seu efeito, exige uma anestesia momentânea do coração. Dirige-se à inteligência pura." (BERGSON)
A última lição de Bérgson que iremos aproveitar é que o cômico não seria completamente desfrutável, se não fosse compartilhado em alguma medida. Isso significa dizer que riso é um fenômeno de grupo, tem uma significação social. "Não saborearíamos o Cômico se nos sentíssemos isolados. Dir-se-ia que o riso necessita de um eco (...), para compreender o riso, é preciso determinar antes de tudo sua função útil, que é uma função social." (BERGSON)

O humor de Casseta & Planeta, Urgente!

O programa de humor Casseta & Planeta Urgente!, que vai ao ar todas as terças-feiras das 22:15 às 23:15 na Rede Globo, tem algumas características que serão examinadas neste trabalho. A primeira delas é lidar com diversos aspectos do humor. Os esquetes são dos mais variados temas que compõem o programa, sempre em tom humorístico, trazem à tona principalmente paródias e por vezes sátiras. A relação com a ironia é fundamental, já que ela é a "principal estratégia retórica utilizada pelo gênero". (HUTCHEON).
Quase sempre com base em algo real - fatos, personalidades, programas (telejornais, telenovelas, programas infantis) que estejam em pauta na mídia no momento - as paródias são o que impulsionam os outros recursos para fazer rir. Recusos de Linguagem, de imitação de sotaques, características físicas caricaturizadas e detalhes na imagem, e atuação dos "atores" na composição do personagem são soluções empregadas para atingir o cômico.
A imitação captura aspectos de expressão já consolidados nos personagens em questão, sugerindo a idéia de ações que já estão "encarnadas" no personagem de forma definitiva. A respeito disso, Bergson diz que "Imitar alguém é destacar parte do automatismo que ele deixou introduzir-se
em sua pessoa."
A caricatura é também utilizada, baseada no exagero de uma característica física destacada. Para Bergson, a caricatura deve ser contorções que insinuam o que nem sempre é perceptível, mas que já faz parte da determinada figura.
Outro aspecto importante para observação é a relação que o Casseta & Planeta possui com a atualidade. Como já dizia Bergson, "nosso riso é sempre o riso de um grupo", e para ter o devido reconhecimento dentro do imaginário do grupo, os humoristas se utilizam de temas agendados na mídia, mais precisamente, como iremos ver mais tarde, agendados pela Rede Globo.

Paródia ou Sátira?

Linda Hutcheon, em seu livro "Uma Teoria da Paródia", esclarece que há diferenciação entre sátira e paródia. Lehmann, por ela citado, vê na sátira uma dimensão do texto paródico. A Sátira pode ser considerada mais como uma crítica de teor moralizante. A paródia, nesse sentido, remete mais a norma estética, onde um elemento é substituído por outro de forma que o resultado seja uma relação contrária/diferente ao que nele se inspira. Para Hutcheon, a definição de paródia se situa, numa "forma de imitação e apropriação textual". A sátira, portanto, é um gênero que se utiliza, inclusive da paródia. Dar à paródia uma função social que cabe à sátira pode ser uma idéia simplista, como afirma Maurício Tavares, por achar que essa definição "esquece de alguns mecanismos complexos da constituição da paródia."
Casseta & Planeta emprega os dois gêneros. Para este trabalho, porém, será examinada somente a paródia, na sua função satirizante (crítica moralizante), ou não. As paródias feitas pelos humoristas podem, em alguns casos satirizar situações a respeito do personagem em questão (como Edson Era Antes do Crescimento, uma paródia do nome de Pelé que diz respeito à propaganda que fez de um remédio para ereção), ou em alguns casos ser apenas um trocadilho com o nome, e imitação de características físicas de determinada pessoa (Como Felipe Pré-Escolari, cuja paródia em momento algum remete ao nível de escolaridade do técnico, parecendo apenas um trocadilho com seu nome, Felipe Scolari).

A Paródia da mídia: Metalinguagem

O Brasil, enquanto lugar onde historicamente se vê confrontos a respeito de visões de mundo, se torna um lugar apropriado para o humor - especificamente a paródia - como forma de lidar com diversos discursos por vezes antagônicos. De início no rádio, o humor se deu e forma muito popular, até chegar na paródia da forma como as próprias emissões eram feitas. A televisão não ficou para trás, de maneira que logo ao ser implantada, a metalinguagem fez parte de seu quadro de humor.
Tavares, em seu texto "Crítica Cultural no Brasil: Paródia e ambivalência" levanta uma questão sobre paródia e metalinguagem na mídia. Ele explica melhor do que eu:

"Como só se parodia o conhecido a mídia se fecha num ciclo completo ao se autoparodiar. A crítica fala a mesma língua do criticado. E a ambigüidade do humor paródico é evidenciada à exaustão: a paródia é uma crítica travestida de homenagem ou uma homenagem travestida de crítica?" (TAVARES)

Tentaremos explorar este questionamento através da análise dos programas Casseta & Planeta gravados no período de 27 de agosto a 24 de setembro de 2002.

Relação Casseta & Planeta e Rede Globo

O paradoxo do humor parodístico está no fato de que ele escarnasse as convenções, mas ao faze-lo está se utilizando delas próprias.
"É sempre importante lembrar que o "parodiador é um inconformista que paradoxalmente assume e recusa a própria cultura" (Aragão em Tavares)
Isso remete ao questionamento feito anteriormente, acerca da paródia ser homenagem através da crítica ou crítica através da homenagem?
No exame dos programas do Casseta & Planeta Urgente!, como já foi dito, são feitas diversas paródias de personagens públicos, famosos, apresentadores e de programas. No que se refere à paródia da mídia, porém, todas elas são feitas sobre o universo da Rede Globo. Até os temas abordados, como dito antes, são temas abordados pelo Jornal da Rede, O Jornal Nacional.
Cláudio Manoel, redator-chefe do Casseta & Planeta, em entrevista à revista Veja disse que apesar de não haver regra fixa para a notícia virar piada, é considerado principalmente o que é veiculado no Jornal Nacional. Adriana Jacob, em seu estudo "Comunicação & Política: uma análise do Casseta & Planeta, Urgente!" Diz que "acompanhando os programas é possível perceber que, de fato, as notícias mais marcantes do Jornal Nacional estão presentes, porém outros acontecimentos também são abordados. Há, por exemplo, cenas baseadas em telenovelas". (JACOB)
Num levantamento, seguem todas as paródias encontradas no Programa, durante o período examinado. Os personagens foram parodiados da forma como foi citado anteriormente, imitando suas características físicas e ideológicas, e com trocadilhos nos nomes ou títulos, nem sempre criticando aspectos morais do alvo da paródia:

Personagens

Miriam Peitão
Paródia: Apresentadora Miriam Leitão

Bonitoni
Paródia: Toni, personagem da Novela Esperança, interpretado por Reinaldo Gianecchini

Caetano Velhoso
Paródia: Caetano Veloso na ocasião de seu aniversário de 60 anos

Luís Levitando Guimarães e Entortanda Torres
Paródia: Luís Fernando Guimarães e Fernanda Torres

Sérgio Chapeleta
Paródia: Apresentador da Globo, Sérgio Chapelin

Edson Era Antes do Crescimento
Paródia: Pelé, na ocasião do lançamento da propaganda do remédio para ereção

Conversando Henrique Cardoso/Convidando Henrique Cardoso/Acalmando Henrique Nervoso/ Vou tocando Henrique Cardoso
Paródia: Presidente Fernando Henrique Cardoso

Felipão Pré-Escolari
Paródia: Felipe Scolari, ex-técnico da Seleção

Lula com Arroz de Brócolis:
Paródia: Lula, presidente eleito

Motosserra
Paródia: José Serra, Candidato derrotado

Xingo Nomes
Paródia: Ciro Gomes, candidato derrotado, a respeito de sua fama de impaciente

Anthony Molequinho
Paródia: Anthony Garotinho, candidato derrotado

Ana Maria Brega
Paródia: Ana Maria Braga, apresentadora da Globo

Programas

Criança Esperança: Vem aí, a nova campanha das oito. Criança Esperança. Mais uma obra social de Benediditino Mocó Rui Barbosa:
Paródia: Junção de Criança Esperança e Novela Esperança, paródia com Didi Mocó e Benedito Rui Barbosa

Novela Ex-Pelanca: Vem aí Ex-Pelanca, a nova estria da Globo. Uma novela de Benedito Rui Adiposa
Paródia: Novela Esperança e do diretor Benedito Rui Barbosa

Vídeo-Xô
Paródia: Programa Vídeo Show

ParaNormais
Paródia: Programa Os Normais

Casseta e Planeta Repórter
Paródia: Globo Repórter

O dia-dia do Cotidiano dos Candidatos
Paródia: O dia a dia dos candidatos, quadro do Jornal Nacional

O beiço do Vampiro: "A novela que está no vermelho e já estorou o cheque especial do banco de sangue"
Paródia: O Beijo do Vampiro, novela das oito da Rede Globo

Menos Você
Paródia: Programa Mais Você, apresentado por Ana Maria Braga

Nitidamente, a maioria das paródias vistas se referem a personalidades ou programas da Rede Globo. E o paradoxo está no fato de que é através da própria Rede Globo, objeto do escárnio, que a paródia é feita.
A paródia tem, inegavelmente, o efeito de explorar mais o universo Global durante alguns minutos (outros programas como Vídeo Show se encarregam disso). Até que ponto não enche de orgulho a Globo o tempo dedicado somente a sátiras de seu universo? Homenagem, ou no fundo mesmo uma crítica? O fato é que causa no mínimo estranhamento o fato de que só a Globo pode ser parodiada pelo Casseta & Planeta. Essa exclusividade revela a superioridade real da emissora, representando o óbvio poder de controle que tem sobre seus programas (lembrando que a tentativa de fazer piadas sobre a virgindade de Sandy foi proibida para o Casseta & Planeta pela Globo, já que não agradou a seu pai, Xororó).
Casseta & Planeta escracha, portanto, a Rede Globo, ao mesmo tempo só existe enquanto programa veiculado graças a própria Rede Globo. Critica algo de que eles dependem de certa forma, afinal de contas, são contratados dela. Suas paródias, portanto, representam em certa medida, uma relação de amor e ódio.

Referências Bibliográficas:

BERGSON, Henri. O riso - Ensaio sobre a significação do cômico. 2ª edição, Rio de Janeiro, Guanabara, 1987.
HUCHEON, Linda. Uma Teoria da Paródia. Lisboa, edições 70, 1985.
TAVARES, Maurício. Crítica cultural no Brasil: paródia e ambivalência. Texto inédito, 2002

Monografia
JACOB, Adriana. Comunicação e Política: uma análise do Casseta & Planeta, Urgente. Salvador, 2000.
Site
Casseta & Planeta on line - www.cassetaeplaneta.com.br


 

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