Perdido na recepção

por Renato Meira

Depois de insistentes indicações de amigos e familiares, resolvi finalmente criar uma conta no site de streaming Netflix. Logo na página inicial, me deparei com a série Narcos (2015), trabalho mais recente do diretor brasileiro José Padilha. Narcos é uma série policial que acompanha a história real do agente anti-drogas americano Steve Murphy e da força tarefa na qual trabalhou na década de 1970 para combater o infame cartel de Medellin, liderado pelo traficante colombiano Pablo Escobar. Por mais interessante que seja a trama da série, o que realmente me chamou a atenção foi a semelhança em estilo entre Narcos e os restante da obra de José Padilha.

Mesmo que as narrativas policiais estejam presentes nos seus trabalhos mais proeminentes, a filmografia de Padilha não me permitiria dizer que ele é um cineasta limitado a esse cenário. Mas é óbvio que na sua obra o diretor busca continuamente incluir as mesmas questões políticas a respeito da desigualdade social, combate ao crime, e sobre o uso de violência pelas instituições do governo – a própria série Narcos dedica seus primeiros minutos a um panorama das ditaduras latino-americanas da década de 1970, mesmo que a ligação desse cenário político com o resto da trama seja meramente tangencial.

Sempre considerei os filmes da série Tropa de Elite (2007/2010) uma crítica à desigualdade social e, principalmente, aos efeitos do uso sistemático de violência pelo Estado – efeitos sobre aqueles que a aplicam, e sobre aqueles nos quais ela é aplicada. Porém, me surpreendi ao saber que na estréia de Tropa de Elite (2007), José Padilha recebeu vaias de  “fascista” – ato que se repetiu na apresentação do filme durante festival de Berlim (no qual o filme foi premiado com o Urso de Ouro em 2008).

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O filme foi entendido por parte da crítica como uma glorificação da violência policial que ele expunha. A tal ponto que em Tropa de Elite 2 (2010) Padilha parece ter achado necessário deixar claro no subtítulo do filme que “o inimigo agora é outro”. Quase como se dissesse: já que vocês não entenderam antes, nesse filme os antagonistas vão ser políticos corruptos e milicianos, para facilitar.

É, entretanto, completamente compreensível que ao assistir Narcos um espectador, vendo técnicas de tortura sendo infligidas por agentes estado como ferramentas eficientes de combate ao crime,  saia com a sensação de que as mentes criativas envolvidas no projeto aprovam tais práticas. O próprio filho do traficante Pablo Escobar disse, em entrevista à Folha de S. Paulo, que a naturalidade com a qual as cenas de tortura são mostradas, representa a validação da violência institucional pelo Netflix.

Não é incomum que filmes sejam criticados por  aparentemente advogarem a favor do oposto daquilo que era pretendido por seus criadores. O filme Starship Troopers (1997), dirigido por Paul Verhoeven, foi acusado de ser fascista e pró-militarista – quando na verdade é uma sátira à propaganda militarista, fascista, e armamentista. O mesmo aconteceu com Sucker Punch (2011), do Zack Snyder, considerado por muitos uma fantasia nerd que apelava para a sexualização das personagens femininas, ao mesmo tempo que tentava fingir ser uma ferramenta de empoderamento feminino. Quando entrevistas com o diretor deixam claro que Sucker Punch  é uma crítica direta à todos os filmes, games, quadrinhos, e objetos da cultura pop em geral que, apoiados na suposta força e protagonismo dados às suas personagens, exploram a imagem feminina para satisfazer o público masculino.

Dissecar os motivos desse fenômeno, ou explorar as nuances da recepção do público, vai além do escopo deste texto. A intenção aqui é mostrar que, baseado nesse histórico, é de se esperar que alguns espectadores pensem que José Padilha é a favor das táticas violentas utilizadas pelo capitão Nascimento em Tropa de Elite, ou pelo agente Murphy, em Narcos. Críticas sociais tendem a ser realmente mais difíceis de se traduzir para gêneros cinematográficos que não o documentário. Por isso acredito que é no seu primeiro filme, o documentário Ônibus 174 (2002),  que Padilha melhor define o discurso que pretende defender com sua obra.

Ônibus 174 acompanha a desastrosa ação policial no caso do sequestro de um ônibus no Rio de Janeiro, em junho de 2000, que resultou na morte do sequestrador e de uma das reféns. O filme questiona sobre quem seria culpado por tanta violência. Apesar disso, no documentário, Padilha não cria antagonistas no sequestrador nem nos policiais. Ao invés disso, resolve encerrar o filme com a seguinte fala de um dos entrevistados: “À polícia cabe o trabalho sujo que a sociedade não quer ver, mas que em algum lugar obscuro do seu espírito deseja que se realize”.